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UM PROSOPOEMA – A RAPARIGA DAS DUNAS



É ruivo, semente de cobre, bandeira e volúpia – o corpo que nas dunas abandonas. Porque tu estremeces, e cantas. Ao ver passar para o Norte as bicicletas, bichos enrolados no seu próprio retrato, ainda e sempre subindo a montanha, e a colar cartazes, o trigo, o martelo, lentamente.

As velhas vão perder a batalha, olhos de água, olhos de água. Cabelo por cabelo desfolha-se um malmequer, a minha vocação nunca foram as luzes submarinas. Não há cidade mais rebelde e despida do que tu. Contigo lembro as dunas. A humidade misteriosa da romã. Escrevo o aroma do pinheiro que fica submerso em tuas mãos. As bicicletas nervosas sobem, a caminho do Norte.

Cada vez mais as dunas confundem-se com o teu corpo ruivo. De rapariga é, também, a areia, o relógio de sol que trazes na cintura, a porta semiaberta para o mar. Não esqueço as borboletas vagabundas. Não esqueças o homem do chapéu encarnado.

Os ombros anoitecem em São Pedro de Muel. Aqui estou dono das dunas, e digo: a natureza que se despe está sempre próxima da revolução. Falo-te de cardos para que os cravos não desbotem. Tenho vícios florestais. O que se vê de ti é ruivo e nocturno, não apodrece facilmente.

Assim és beijada por dunas, feita de areia tensa como o ventre: o pólen. Vem depressa, porque estão a raptar as bailarinas. Incendeiam a murta. Mijam no suor. Os mamutes não gostam de ti, oh rapariga das dunas.

Vamos incentivar as milícias! Por cada formiga morta, o povo avança um pouco mais.

S. Pedro de Muel – Setembro de 1975

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