Avançar para o conteúdo principal

RUA FERNANDO PESSOA


VlVI no Bairro dos Poetas um ano e cinco e dois meses, mais sete dias — quantas horas de treva? —, e as ruas eram sempre pequenas, esmagadas por flores.
Havia dois homens que amolavam facas, punham chapéus-de-chuva aptos e joviais para com eles se descer à cidade do Rocio.
Um dos homens era novo e gordo; o outro bebia, dizia ser de Cintra quais morangos frenéticos, e tinha colado às veias o fulgor da chuva.
Era o seu vinho cimentado em angústias.
Estavam combinados como a dádiva do vento ou fungos de astros com sarna: de quinze em quinze tardes, o primeiro homem (às quintas-feiras) e o segundo (aos sábados) assobiavam como cântaros rachados por tesoiras.
Às portas e janelas chegavam rostos, vinham do almoço tecido de nêsperas, garfos ou maracotos,
olhavam para o amolador de sonhos minúsculos, e sorriam.
Alvalade ainda não era a época dos números a rua Fernando Pessoa tinha pedras por trás dos prédios bom vinho, coelhos a crescer, leite.
Ao tempo eu gostava dos cabelos sedosos de Mathilda fazia brindes ao seu cheiro fêmeo a invadir pomares; João tinha regressado do Egipto com retratos de amores brejeiros; Mitchell escrevera a dizer que o vento molhado sabia mais a frutos, isto é, queria fazer as pazes com Rodessa; e a Kathie e a Kathleen e o Marcos bebiam a três licor — à noite — numa escaldada cama de feltros: eram um sexo triplo e submerso, um fogoso cérebro volúvel.
Eu lia Fernando Pessoa, à minha volta cresciam as ervas rasas tinha no sangue então o conflito de ainda não ter ido à Grécia acreditava que os olhos não voavam, queria-os cordeiros mas passava as noites a contar os desastres, os incêndios que traziam sustos, toalhas sangrentas e fungos.
O tempo era, ao tempo, um toiro de Sevilha e um verme, o aroma intenso das raparigas.
O rosto à vista tinha dentro de si muitos rostos.
O mesmo acontecera com a rosa brava que beijava os próprios monstros. Assim todos os becos sagazes dispunham de um triturador de bolachas.
Era uma época de bailes submarinos.
As casas queimadas fascinavam-me. Como sei que — mesmo agora — os livros cínicos fazem-me bem.
Foi nessa época que a lã pacífica dos dedos de Benny caiu sobre o corpo de Rogan.
E os ingleses mais velhos não gostaram.
Porque os dedos direitos de Benny dispararam navalhas e o coração de Rogan não era feito de granito.
Por muitas horas que, então, eu lesse os versos de Pessoa os sítios não mudavam.
A Cheryl não se deixava seduzir por anéis ou retratos.
O Quim odiava o Benny que exibia um carro da cor do céu.
Era tenebroso ser português em Lisboa, e jovem.
Mesmo depois de ter saboreado as ilhas gregas, os cheiros do Mar Egeu invadiam os meus nervos com lacraus e pólvora.
Entre mim e a Grécia houve sempre muitas facas.
(in “PHILOSOPHUS PER IGNEM, poemas”, Edições Mic, Colecção Salamandra/19)

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Soneto de Natal

in PEQUENA ANTOLOGIA DE NATAL, 1977

RIOS COM LUZES BREVES

"Há luzes de erva veloz no coração dos peixes. Há peixes de sombra atravessados por uma luz finíssima, filtrada à porta do caos. O casaco que visto ainda não serve para fugir ao medo. Rosa no púbis (ou apenas) trevo. São de águas mórbidas o sonho em que à noite te levo. O que em mim melhor se lava é um prego escuro e tem bichos à volta como o desassossego. Há rios que nunca noivam: madastra de pão - o Tejo; toiro moribundo - o Mondego." Fernando Grade Faino, 19 de Junho de 1987 in "Compra-me um doido"

Os Mortos de Suai ou Homenagem Latina a Ma'Hodu

No último trimestre de 1999, o «Diário de Notícias» convidou Fernando Grade para publicar um poema sobre Timor Lorosae. O poema, este que se segue, foi censurado. Nunca veio a lume...Entretanto o poema «Os Mortos de Suai ou Homenagem Latina a Ma'Hodu» foi enviado ao Xanana. Os Mortos de Suai ou Homenagem Latina a Ma'Hodu À memória do maior ficcionista português do século XX: José Rodrigues Miguéis "TUDO malhado a sangue, o coração atingido por facas balas sórdidas dobradas a rasgar a pele, a carne em larva (máscara), olhos castos esburacados. Chegaram então os mortos de Suai. Quando eu soube descia a avenida lisbonesa Almirante Reis, lembrei-me de ti oh Miguéis. Vinham de longe, apareceram pelo meio da tarde as bestas; não eram à solta pássaros densos nem vento d'asas a brilhar, era sangue bom escorrendo massacrado por hienas. E fui contigo (Zé Rodrigues) e com a dona Genciana e com o «Pata- -Choca» e descemos em Díli para lutar contra os chacais. E tínhamos ...